A dança dos parceiros de conversa
- Paula Pereira

- 19 de set. de 2019
- 3 min de leitura
Atualizado: 8 de fev. de 2022
Aprender mais sobre um tema, ter uma ideia de negócio, imaginar um passado ou futuro diferente, conhecer a si próprio e a quem está ao seu lado; conversar é bom por N motivos e eu adoro. Me satisfaço com essa dança sonora; com esse vai e volta de quem fala e depois escuta. Essa dança exige coordenação e cada um tem seu próprio timing. Se dois falam ao mesmo tempo é briga e quando ninguém fala… aí simplesmente não é conversa.
Acredito que assim como numa dança de salão, existam parceiros favoritos nesta modalidade de “dança”. Você não vai querer dançar com alguém pisando no seu pé, te empurrando para os cantos ou te atropelando até os dois desistirem de chegar a uma conclusão. E também existe o dançarino que não sai do lugar. Bah, tenho dificuldade considerável em dançar com esse tipo que não sabe nada de ritmo, que não se expressa e, principalmente, que não tem argumento.
Mas a gente só encontra o parceiro certo dançando com mais pessoas, não é?
A vida me apresentou alguns dos meus dançarinos favoritos: minhas amigas e meu marido. Quer ver “duas horas” passarem como se fossem “dois minutos” sem a gente terminar toda a coreografia? Me deixa num café, num telefonema, num quarto ou numa festa com eles. O tempo voa!
“Dança boa acaba rápido e deixa a gente querendo dançar mais”.
Converso muito com minha mãe, mas com ela a dança é diferente. Sou eu quem conduz a dança e apesar dos curtos movimentos que ela faz, tenho certeza de que ela está sempre me ouvindo. Isso, claro, se ela não estiver com o celular na mão. Minha mãe, aliás, acha que eu falo muito. Ela fica surpresa ao ver quanto tempo dedico a esse passatempo prazeroso com meu marido. “O assunto não acaba!?”, pergunta ela.
Minha mãe acha que “conversar” pode ser uma atividade um tanto quanto cansativa. Tão cansativa que às vezes ela até assiste filme no modo “mudo”. “As legendas são suficientes”. E quando mostro para ela um vídeo de algum youtuber que corta aqueles segundos entre uma fala e outra, bah, ela não gosta. Certa vez mostrei um vídeo do Pirula, youtuber que trata de temas que variam de ciência à política, e ela não gostou. Não pelo conteúdo, por outro motivo...
O Pirula fala bastante! Seus vídeos são longos, geralmente mais de 15 minutos, e frequentemente seu discurso envolve argumentações bem detalhadas. Eu o ouço com atenção porque gosto, já minha mãe não. Ela acha que vídeos assim não dão tempo pra gente “pensar”. É, com o Pirula não tem dança, a gente só ouve, então, não é conversa. Quem quiser pensar, vai ter que dar pequenas pausas durante a exibição.
Minha mãe é minha amiga e me ouve. Nem sempre tão pacientemente, mas ouve. Esses dias por exemplo, estávamos ponderando se iríamos à São Paulo de carro ou de ônibus. Pesamos vários prós e contras e parecia que, ao final, pelo menos financeiramente, daria elas por elas. Eu queria ir de carro porque, embora fosse mais estressante, o tempo de viagem seria “possivelmente” mais curto.
Minha mãe queria ir de ônibus; porque pra ela o estresse do trânsito era maior do que o benefício do tempo menos extenso. Para tentar convencê-la a irmos de carro apresentei um argumento bastante tentador:
“Mãe, se nós formos de ônibus, eu vou ter uma hora inteira ao seu lado para a gente conversar. Se formos de carro, eu vou ter que prestar atenção no trânsito. Agora, você escolhe”.
Rimos, mas ao final fomos de ônibus mesmo. Fiquei imaginando o desprazer de ficar parada no trânsito em meio à rodovia, com o pé mais no freio do que no acelerador, e achei que seria melhor não ter que “me preocupar” com isso.
Facilitei o trajeto pra minha mãe e levei um livro.




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