O que os olhos viram e o coração sentiu ao retornar ao Brasil
- Paula Pereira

- 14 de set. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 29 de jan. de 2022

Há duas semanas retornei ao Brasil e agora já consigo refletir melhor sobre essa experiência do "voltar". Eu nunca havia passado tanto tempo longe daquilo que sempre foi minha realidade: a casa, o bairro, o círculo de amigos, a família, os gatinhos e, claro, até os problemas corriqueiros, como as extensas filas dos Correios, os congestionamentos do fim de tarde, as inúmeras ligações de spam pelo celular e as preocupações reais de um país que nos exige estar alerta, por exemplo, aos perigos de um assalto em plena luz do dia.
Quando decidimos que eu voltaria (temporariamente) ao Brasil, meu marido logo se indagou quais seriam minhas percepções. Isso porquê ele próprio, quando retornou à Ucrânia após viver anos no Brasil, se surpreendeu com situações do cotidiano e com certos aspectos da sua cultura que não havia percebido antes - talvez porque quando a gente cresce muito inserido num contexto, fica difícil "ver de fora". E sair, se distanciar, também é importante para calibrar esse olhar e entender onde colocamos nossas (pré)ocupações.
A casa
Mamãe deixou tudo preparado para minha volta. No banheiro, esponja ainda embalada, sabonete novo, um novo conjunto de toalhas e o armário todo reorganizado - "Hm, alguma Marie Kondo passou aqui". A cama é a mesma, onde ainda está à minha espera aquele colchão novo e mal escolhido para me lembrar que noites duras virão pela frente; mas quarto é quarto, guarda tudo o que tem o cheiro da gente, as fotos que a gente escolheu para pendurar na parede e os pequenos bibelôs trazidos de diferentes lugares e que nos aquecem a alma com boas recordações. "Olá, quarto! Olá casa! Estou de volta!".
O entorno
Se por um lado a casa é o primeiro espaço de vivência deste retorno, todo o restante que acontece lá fora é o entorno, é o que nos força olhar àquilo sobre o qual parecemos ter tão pouco controle: os serviços e desserviços de um país caótico, tensionado e polarizado. Nesse sentido, é visível que o país piorou. E haja saúde mental para viver no meio de tudo isso.
O Brasil não deixou e nunca deixará de ser "o meu país", o berço da minha cultura e tudo aquilo que normalizei. Mas "voltar" após esta pequena vivência fora, me faz sim analisar certas situações e atitudes do nosso povo. Por exemplo, se por um lado na Ucrânia "furar fila parece algo usual", por outro lado, os ucranianos são mais desbocados e chamam a atenção na cara a dura. Criança correndo pelo restaurante? Falando alto? Eles não ficam "cheio de dedos" para exigir bom senso: a bronca vem dura, olho no olho. Já no Brasil, naquela extensa fila dos Correios, um rapaz atrás de mim se pôs a ouvir umas baboseiras pelo celular: vídeo de pegadinhas, programa de barraco entrevistando o marido que tentava "justificar" porque bateu na mulher, umas músicas bem "aleatórias" e outras coisas mais... tudo em alto e bom tom, sem o bendito fone de ouvido. Imagina se todo mundo alí tivesse tido a mesma ideia?! Na Ucrânia, quiçá por sorte, não vivi nada igual.
Empatia...
Enfim, a fila inteira sabia o que ele estava assistindo. E ah... como senti falta de um ucraniano por perto para chamar a atenção dele. Queria eu ter tido a coragem de exigir um pouco de empatia. Poxa, enfrentar fila, em qualquer lugar que seja, já é chato, estressante; ouvindo a bobagem desordenada dos outros só azeda ainda mais o dia. Mas seja mulher no Brasil para abrir a boca e pedir para um homem baixar o volume ou usar um fone de ouvido... é o "medo" do tapa na cara!
Esse rapaz, no entanto, era só mais UM da fila, o único ruído entre os outros trinta que estavam alí quietinhos como eu, aguardando sua vez no caixa. E apesar de eu sempre me estressar quando encontro pessoas assim; ao retornar da Ucrânia, eu fiquei é muito mais surpreendida com aquela coisa que a gente sempre ouve dizer sobre o povo brasileiro: a simpatia.
Simpatia...
Os ucranianos podem até ser formais e respeitosos, mas ser simpático, agradável e caloroso já faz parte do "atendimento padrão" do povo brasileiro. Aquele "bom dia" olhado nos olhos e o sorriso largo que vem primeiro, vem de graça e que a gente percebe mesmo debaixo de uma máscara N95, quase faz a gente esquecer que o desemprego chegou a quase 15% este ano no país ou que a inflação continua subindo. "Felicidade esbanjada na cara de quem ainda tem emprego?". Mas aqui no Brasil é assim; na compra do pão na padaria, no caixa do supermercado, na lojinha do shopping e na consulta médica, à sua frente, do outro lado do balcão, tem alguém que vai tornar aquela sua outra tarefa chata do dia a dia em um momento leve, prazeroso. Pequenos gestos que contam. Eu prefiro assim. "Olá Brasil! Olá brasileiros!".




Esses é um dos pontos que eu mais penso no caso de uma visita ao Brasil. Já se passaram quase 3 anos que não volto e percebo que muito do meu jeito de lidar com as coisas estão meio "ucranianizados". Fico pensando como será retornar e lidar com essas coisinhas do dia a dia mas que dizem tanto sobre a cultura de um lugar
Gente incoveniente tem em todo lugar, mesmo! Independente de cultura ou nacionalidade! Nesse caso, atualmente, eu não ficaria quieta não. "Fingiria que estava tentando ler algo no celular ou falando com alguém ao telefone e pediria "por favor 😒" tem como colocar o volume mais baixo? Não consigo ler!" 🤷🏻♀️ Aqui por outro lado, parece que todo mundo acordou de mau humor! Reclamam de tudo e de todos...🤷🏻♀️ Minha percepção.