A verdade te prepara ou te enfraquece?
- Paula Pereira

- 29 de set. de 2019
- 3 min de leitura
Atualizado: 8 de fev. de 2022
Será que a “verdade” é capaz de nos preparar para o futuro ou será que, em determinadas circunstâncias, ela mais assusta do que ajuda? Mês passado, na consulta com meu ginecologista, o médico e eu discutimos sobre “o que mais” poderia ser feito para avaliar minha (in)capacidade de engravidar já que todos os exames que eu havia feito estavam simplesmente maravilhosos. Nada errado, nadinha.
Em toda consulta o diálogo se repete:
“Quanta urgência você tem em engravidar?”
“Hmm, para ontem… mas com certeza, para antes dos 38”.
Falemos a verdade, depois dos 30, a vida passa num piscar de olhos. Tenho a sensação de que amanhã vou acordar aos 40, numa bela manhã de domingo, com o rosto marcado por rugas, com incontáveis fios de cabelo branco e nenhum bercinho no quarto ao lado.
Mas voltemos ao dia da consulta rs...
Nunca vi meu ginecologista de mau humor. Ele sempre fala algo engraçado que me faz pensar em coisas aleatórias durante os exames mais chatos. Acho ótimo; melhor do que aquele frio do silêncio profissional que gela a alma. Na última consulta, porém, enquanto ele falava sobre “o que mais” poderia ser feito para investigar as causas de uma possível infertilidade, não havia espaço para gracinha nenhuma.
O ginecologista disse que eu poderia fazer um exame chamado HSG (ou assustadoramente conhecido como Histerosalpingografia). Ele falou brevemente sobre como é feito o exame e me alertou que ele é “bem desconfortável”, que causa “dor”, mas eu não fiz muitas perguntas e não questionei sobre “o nível” da dor… isso é parte da minha mentalidade “se precisa ser feito, vai ser feito e ponto final”.
Minutos mais tarde, lá estava eu deitada e vestida naquela camisola dura e fria para mais um exame de rotina (o papanicolau do ano). E enquanto eu me esforçava para não tremer de frio, tentando imaginar que a luz da sala poderia me aquecer como o sol, o médico me distraía falando uma gracinha e outra. De repente, o exame acabou. Respirei aliviada e ao levantar minha cabeça o ouvi dizer:
“Quando você estiver lá fazendo o exame e doer… não esqueça que foi você quem pediu”.
Risos amarelos para todos os lados. Ele se referia ao tal exame HSG. Fosse com a intenção de fazer uma última gracinha ou não, seu último alerta me preocupou. Será que ele queria dizer que talvez fosse cedo demais para eu me submeter a um exame desses? Ou será que ele teme que eu me sinta tão mal durante o exame que depois vou acusá-lo de não ter sido “realista” comigo? Não sei.
A verdade estava dita: vai doer. Mas o que isso faz com quem ouve?
a) Deixa a pessoa tão assustada a ponto de questionar a real necessidade do exame?
b) Assusta tanto a ponto de, na hora do exame, o inconsciente confirmar que toda dor é absurdamente demasiada?
c) Deixa a pessoa tão assustada e preparada para o pior que, na hora, ela pensa que nada dói tanto quanto foi alertado?
Difícil dizer. Comigo, a verdade me abalou um pouco (resposta do item “a”). Quem é que gosta de saber que vai se submeter intencionalmente a um procedimento doloroso? Com certeza, eu não. Mas aí tenho que voltar à raiz do mantra: “Se precisa ser feito, vai ser feito e ponto”. Claro, talvez tivesse sido melhor meu médico dizer que “é um exame tranquilo”, que “depois desse exame não há nenhum outro a fazer”; mas se ele tivesse minimizado a situação, eu teria voltado pra casa, pesquisado na internet, e me torturado ainda mais com os relatos das mulheres que já se submeteram ao tal exame.
Anyway… se há qualquer “vantagem” na verdade que o médico disse, é que por causa dela eu tenho mais “certeza” de que estou fazendo o que é certo. E se vale alguma moral pro dia, talvez ela seja:
“Só a verdade nos prepara para o que vai acontecer e nos torna mais fortes; a ilusão não prepara; só ilude e decepciona”.



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